Barão da Mata - Verdades e Diversidades

Barão da Mata - Verdades e Diversidades
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domingo, 26 de dezembro de 2010

O HOMEM FELIZ

"A manhã de ontem foi muito difícil. Passei mais de duas horas tentando amarrar os cadarços dos tênis para ir à rua. Mas o importante é que consegui. Mas fiquei cansado. Porque antes tentara (já que ainda anteriormente me haviam falado que era possível) por longo tempo fazer o meu canário falar. Disseram: 'Vai, insiste, que é possível, sim!' Mas, como você vê, quem me disse estava enganado. Fazer o quê?
Mas segui a vida e fui a um bar para beber com os amigos. Após lá chegar e conversar um bocado, comprei de um vendedor ambulante uma caixinha de morangos, a qual resolvi dar como agrado à minha mulher. Ia deixar o bar para levar-lhe os morangos, mas o Rafa, um rapagão atlético que passa os dias na academia, disse, num gesto de extrema cordialidade, que eu não me cansasse nem interrompesse a conversa, que ia tão agradável, e se dispôs a entregar a ela o presente. Aceitei depois de muito agradecer-lhe, pois o Rafa é um jovem muito obsequioso e que a minha querida esposa admira a ponto de mostrar um brilho sem igual nos olhos quando lhe menciona o nome. São muito amigos os dois. É uma amizade muito bonita. Como é belo o ser humano! Ainda, abusando da boa-vontade do rapaz, pedi-lhe que a avisasse de que não me esperasse para o almoço, pois só chegaria à noite, porque decidira passar o dia inteiro com os amigos. Uma pena o jovem atleta não haver voltado até a hora em que saí do botequim, pois eu teria o maior prazer em pagar-lhe a bebida (se ele bebesse) e o tira-gosto que ele melhor apreciasse.
Chegando a casa, sem querer acordei a minha querida consorte, que estava enrolada entre os lençóis da cama toda revirada e me contava que fora acometida de uma indisposição enorme. Fiquei desconfiado de que pudesse estar anêmica. Resolvi que marcaria um médico para ela.
Beijei-a na testa e disse que continuasse dormindo, sem deixar de me desculpar por havê-la incomodado.
Sentindo-me sozinho, resolvi ligar para minha mãe. A empregada atendeu ao telefone e me disse que minha muito amada genitora fora atender a um cliente no domicílio daquele.
Minha mãe faz um trabalho interessante. Vai toda noite a uma boate e, além de dançar e mostrar o seu corpo ainda lindo apesar dos cinquenta anos, ainda sai de lá com alguns homens inquietos e necessitando de gastar energia. Quando voltam, o homem sempre vem relaxado, feliz e tranquilo. Muito competente minha mãe em seu trabalho de alegrar e desestressar homens tensos. Nasceu com vocação para a medicina.
Liguei então a televisão e fiquei a ver um grupo de políticos a discutir leis e os rumos da nação. Sinceramente, tenho um grande orgulho dos nossos políticos, homens que trabalham dentro da maior competência e seriedade, e que não têm outro intento além de dar o melhor ao país e à sociedade. Vê-los assim a debater as coisas de interesse público me traz uma comoção tão grande, que sempre vou às lágrimas. Tenho-lhes em tão alta conta, que, naquela noite, sem poder ter tido a atenção de minha amada esposa ou de minha querida mãe, não achei a a noite perdida exatamente por vê-los e ouvi-los."
Moral da história: para acreditar em polítcos, só sendo muito burro, corno e filho da ...
2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

O MANUAL DO PENSAMENTO PADRONIZADO

Ando cansado de ouvir que sou mal-humorado, rabugento, brigado com a vida, essas coisas do gênero. Não posso dizer que eu seja um campeão de bom-humor, mas as pessoas se equivocam quando fazem as observações de que falo. Porque o que a elas parece azedume de humor é na verdade o meu senso crítico. É preciso que elas separem o joio do trigo: alguém que analisa algo racionalmente, sem envolvimentos emocionais, e tem uma visão crítica e analítica das coisas não pode levar as pechas que tenho levado.
Quando ouço uma emissora de rádio e alguém elogia algum artista ou música que não é do meu agrado, exponho minha opinião e tento justificá-la, sem me limitar àqueles "não gosto não" sem fundamentação. E assim me comporto quando tenho uma avaliação negativa sobre telenovela, filme, programa de tevê, poema, política e político, personagens da história e vai por aí adiante. O meu grande problema é com as unanimidades ou tudo aquilo de que a maioria gosta porque a mídia decidiu que é bom. Acho que elas, já tão acostumadas a se orientar pela imprensa antes de ter uma opinião ou postura sobre alguma coisa, deveriam comprar, nas bancas de jornais, um manual do pensamento padronizado pelos veículos de comunicação. Pronto! Aí ficaria tudo certo. Embora o tal manual ainda não exista, quero sugerir que as editoras o criem e o publiquem mensalmente, determinando quais as boas músicas e os bons trabalhos artísticos, os bons políticos, os bons filmes, etc...etc... Se a coisa der certo, o cara nem precisará ir comprar o manual: poderá baixá-lo pela internet. Já imaginou?
Fico me sentindo um marciano por não gostar de "reality-show", de programa de auditório, de telenovela (vi algumas boas, como Roque Santeiro, no passado, mas hoje não dá), de filme de porrada e tiroteio, de história de amor mela-cueca, de dramalhão, de comédia-garotão-sem-cérebro, de overdose de futebol, de enredos e roteiros baratos e de pouco conteúdo.
Fico impressionado com o fato de as pessoas serem estereotipadas não só na indumentária e nos hábitos, mas principalmente no pensamento. Parecem um monte de robôs de uma mesma série, todos saídos de uma única matriz. Não querem se dar ao trabalho de pensar, examinar as coisas, refletir sobre se as avaliações que lhes mandam prontas são palatáveis ou não. Vão logo engolindo! Parecem avestruzes! Aliás, que as aves me perdoem usar o nome de sua espécie num sentido pejorativo. Mas as pessoas não querem conceber idéias, compram-nas prontas e o assunto tá resolvido.
Agora, se você não quer enfrentar o tipo de problema que enfrento, vou-lhe dar agora algumas orientações - ou "dicas", que é como se gosta muito atualmente de falar. Vamos lá.
Primeiro, não questione a coisa religiosa: se tá escrito na Bíblia é porque é verdade - não fique aí pensando. Aprenda a gostar de "BBB", "A Fazenda" e outras bostas do mesmo tipo, e ainda ache que aqueles caras são todos grandes artistas, de talento inegável e indubitável, porque o grande artista, digno da expressão, fica durante três meses dentro de uma casa, coçando o saco e "trepando" debaixo de edredons enquanto se envolve em inúmeras fofoquinhas baratas e disse-me-disses. Se tem um filho em idade escolar, aconselhe-o a não estudar e fazer de tudo para ser um famoso "big brother". Goste de música titiquinha, essas de trechos curtinhos sempre muito repetitivos, de preferência com duplo sentido e bastante sacanagem no meio. É o ideal. Há uma porrada de pagodes e "funks" por aí com este perfil. Goste de novela: é tudo na vida. Um cara que não se interessa por draminha barato é um inculto, um ignorante. Ame os passeios à região dos lagos e sobretudo os engarrafamentos da Rio-Niterói. E de preferência ligue o som do seu carro bem alto quando estiver no congestionamento, porque barulho nos tímpanos dos outros é, como se diz, tudo de bom. Quando for votar, escolha os políticos mais conhecidos e os mais benquistos pela mídia. Afinal, você está aí para votar, não para pensar. Comova-se com todos os discursos baratos e demagógicos desses caras e, se possível, chore com eles se for o caso; se não for o caso, chore por eles: lágrimas dão um toque de sentimentalismo vagabundo todo especial ao discurso político. Procure sempre ir a restaurantes aos domingos à tarde, principalmente nos dias festivos. Uma boa fila e um restaurante lotado são o que há de melhor para você provar que é igualzinho aos outros. Puxe o saco de qualquer um que tenha dinheiro ou poder. As pessoas acham o puxassaquismo muito positivo e ficam orgulhosas de si quando um sujeito de grana, poderoso ou famoso as cumprimentam com um breve e quase desdenhoso gesto de sobrancelhas. Frequente festas de ruas e ajuntamentos, por mais que eles sejam incômodos, perigosos ou violentos: afinal de contas, você não é um chato.
Eu poderia dar-lhe outras tantas sugestões, mas eu prefiro que você tome estas poucas como ponto de partida, enquanto trabalhamos para a mídia criar o manual do pensamento padronizado. É isso aí, gente! Todo mundo sempre pensando igual!

2010

domingo, 12 de dezembro de 2010

O PENSAMENTO POLÍTICO E OS MODISMOS

Sou do tempo em que tecnocrata era uma expressão de cunho pejorativo. E não podia deixar de ser, se levarmos em conta que, como registra o dicionário "Aurélio", tecnocrata é "partidário da tecnocracia" ou "político, administrador ou funcionário que procura soluções técnicas e/ou racionais, desprezando os aspectos humanos e sociais do problema". Todo tecnocrata, nos anos oitenta e início dos noventa, era malquisto, ironizado, tachado de burro, chcoteado, ridicularizado e tido como perverso, insensível e despreparado para o exercício do poder - justamente por sua negligência e inconsciência quanto às questões sociais.
A partir da era Collor, curta mas nefasta para as classes trabalhadoras, já se passa a ver os tecnocratas e conservadores com olhos mais complacentes, e há uma cruel transformação de mentalidade, porque o nosso "herói" achava que as leis do mercado estavam acima do bem e do mal, e sapecava neoliberalismo pra cima do Brasil, e a mídia, adesista como sempre, é claro que comprou a idéia e enfiou por nossa goela a baixo, e a classe média, no seu impecável papel de avestruz e papagaio, engoliu tudo aquilo com um prazer impressionante, repetindo pelos quatro cantos do Brasil que aquele negócio de liberalismo econômico sem freios e sem preocupação com o social era bom por demais e vai por aí adiante. Embora o protagonista de tal período tenha visto o seu governo morrer prematuramente, deixou como legado um pensamento neoliberal pavoroso. Os segmentos políticos reacionários ganharam corpo, pois havia um clamor muito grande do poder econômico por idéias que defendessem seus interesses. Assim, a doutrina econômica professada pelo ex-presidente ficou, no tempo de Itamar Franco, seu sucessor, pairando no ar enquanto não encontrou campo para encorpar-se e engolir a nação. Itamar, por não ser homem de tendência neoliberal, sempre foi muito pressionado por parte das forças políticas de direita e da mídia para que adotasse a quaquer preço uma conduta de privatizações (ocasionando lucros ou prejuízos ao Brasil), de indiferença aos salários e empregos, de desrespeito às coisas de caráter humano. Em outras palavras, a era Collor inaugura no país uma mentalidade de que as estatais significavam o gigantismo patológico do Estado, que era preciso proivatizar(1), privatizar(!) e privatizar(!), e os salários precisavam ser contidos para o bem das empresas e dos cofres públicos, ou seja, aos salários era preciso achatar(!), achatar(!) e achatar(!), e ainda aos trablhadores demitir(!), demitir(!) e demitir(!). Fernando Henrique é o continuador da maldita obra do xará, e consegue colocar em prática tudo o que o homônimo preparara para o país. Rasgou livros e idéias próprias, também a Constituição, abriu mão da credibilidade pessoal e, por conta disto, em contradição a tudo o que defendera durante quase toda a carreira política, fez um governo de reacionarismo cruel e canibalesco, o que agradou muito aos seus anjos da guarda, que eram os banqueiros e governos estrangeiros. Não deu a menor importância aos anseios e carências das camadas sociais da classes média a baixa, e a sua postura administrativa estava em pura consonância com o pensamento adotado (e na época tornado moda) pelas forças políticas e pela mídia, que sempre faz a prostituta investida do papel de porta-voz do poder econômico e do comando estabelecido.
A vinda do governo Lula deu vida a um fenômeno que, na falta de melhor expressão, podemos chamar flexibilização (terminologia que a desacreditada classe política gosta muito de usar para defender pontos de vista que não merecem crédito) dessa coisa de o remédio ser sempre cair para a direita e deixar danar-se o mundo. Começou-se a propalar, no governo e na imprensa, que essa história de privatização não é bem assim, porque é preciso critério e em muitos casos preservação do patrimônio público. E não é que, arrogante e antipático mas não bobo, o nosso "amado" José Serra, em sua campanha sem sucesso à presidência , acusou o PT de ser privatista, quase dizendo-se estatista e ardoroso defensor do bem nacional? Incrível, não?!
É bem verdade que a inclinação à esquerda que havia nos anos oitenta está sepultada. O PT sempre vendeu uma imagem de partido de esquerda, mas no poder deixou a gente ver que a coisa não é bem assim. Na verdade tem uma conduta conservadora, pois os banqueiros, benficiários de sua política econômica, o abençoam com justa profunda gratidão, e os trabalhadores, tripudiados e iludidos por bolsas disso e daquilo, têm o salário aviltado e não conseguem avançar um milímetro na sua condição material e na própria auto-estima. Os dois governos Lula foram na verdade um arremedo mal feito do governo Vargas, que também era assistencialista e conservador, mas permitiu à classe trabalhadora direitos trabalhistas importantes e ganhos salariais com melhor poder de compra do que os de hoje, enquanto o PT mantém os ganhos dos empregados em baixos níveis e ainda compactua com essa gente que quer suprimir as conquistas obtidas pelos trabalhadores na era Vargas, tornado-se assim (o PT) um governo e uma agremiação pré-getuliana, como pré-getulianos são os políticos de hoje, porque todos são pré-getulianos de tão perversos e retrógrados.
A aceitação ( e defesa), por parte das forças políticas atuais e das pessoas que formam opinião, à famigerada reforma trabalhista é uma prova incontestável de que as idéias neoliberais encontram prefeita acolhida dentro da opinião pública dos dias de hoje, porque o modismo desta vez aponta na direção de uma doutrina antagônica à predominante nos anos oitenta. E o pior de tudo é que uma grande parte do público aceitou o pensamento sem muito raciocinar, mas unicamente para seguir a favor da corrente e acompanhar o que é bonitinho dizer hoje, arrotando asneiras por aí afora enquanto pensa estar falando bonito e dizendo as coisas mais inteligentes do planeta.
Pode até alguém refutar o meu discurso, argumentando que o pensamento não pode ser pétreo, mas, que fique bem claro, quando se trata de questão social, não dá para se mudar radicalmente a opinião, porque pode fazer a diferença entre pessoas terem ou não emprego e algo para comer. E agora, cá para nós, pra quem quer sempre estar do lado que esteja ganhando, até o adesismo requer reflexão, não a aceitação pura e simples por conta do rumo dos ventos.

2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

OS DEMÔNIOS

Alguns religiosos têm uma profunda e extrema preocupação em relação à figura do demônio. Que o demônio deve ser combatido, que o demônio deve ser evitado, que devemos ficar bem longe do demônio: " Sai pra lá, demônio!" Entretanto - e disto eles não se apercebem - independentemente da existência ou não de um demônio rei supremo das trevas, ou ainda de inúmeros minidemônios pelo além afora, é impossível nos distanciarmos dos demônios, porque eles são de carne e osso, com sangue circulando nas veias e coração palpitante. Isto mesmo! Os grandes demônios, os mais perniciosos demônios, estão no dia-a-dia e bem perto de nós.
Eles estão atrás dos volantes dos seus carros (compreendem uma parte significativa dos que dirigem nesta nossa terra sem lei), fazendo direção perigosa e colocando em risco a vida de inúmeros inocentes, entre os quais estão as crianças, os idosos, os animais, os não-idosos (que também têm o direito à vida e à integridade física). Pouco lhes importa se podem causar a morte de alguém e trazer a desgraça a um lar e a uma família, porque não há para estes demônios nenhuma vida que tenha a menor importância. São tão negligentes, que vão às raias da burrice, porque há momentos em que, em manobras absurdamente irresponsáveis, colocam, por conta de ganho de frações de segundo, em risco a vida de si próprios, e tamanha imbecilidade os faz mais demoníacos ainda, porque são, além de perversos, mentalmente involuídos, fazendo-se assim pessoas rasteiras e abomináveis.
Os facínoras, os bandidos de todos os tipos (sejam eles marginais ou oficiais), demônios armados e prontos a produzir morte a qualquer momento, por maldade e habitualidade, são um grupo análogo aos bandidos do trânsito, praticam crimes hediondos e barbáries inefáveis, tendo como instrumento um outro tipo de arma letal: a arma de fogo.
Outros demônios perigosos são alguns entre aqueles que detêm qualquer tipo de poder, porque, com a prerrogativa da punição, da geração de desemprego e de miséria, seja por medida política ou administrativa, parecem ter o prazer nefasto de devastar vidas familiais e comunidades e sociedades inteiras. Alguns provocam guerras e massacres, holocaustos e imensuráveis destruições.
Levando em conta que um automóvel é um instrumento de ferro, que dá a um ser humano um poder físico muito além das suas condições naturais, da mesma forma como uma arma de fogo proporciona o mesmo tipo de aumento de força física, assim como a colocação em boa posição hierárquica dá condições para a prática de atos de peso, o que também representa força, eu repito o que todos dizem : que o poder não corrompe, revela.
Entretanto, não é a conclusão a que eu quero que você chegue. Todo o meu discurso se resume a uma pergunta: dito tudo o que eu disse, me responda: quantos demônios tem o mundo?
2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O PUXASSAQUISMO PODE SER UMA PANDEMIA

Quando ingressei na escola, aos sete anos (naquele tempo não havia maternal, jardim, etc...), já cheguei bem ciente de quem mandava e de que devia obedecer. Era a professora, investida de um poder de fogo respeitável e outras coisas do gênero. Sabia como me portar, procurava manter uma conduta que não me criasse problemas, porque já aprendera a obediência em virtude da disciplina que me fora ensinada pelos meus pais.
Se sabia como me conduzir e conhecia o perigo que representaria indispor-me com a autoridade, por outro lado, no entanto, não procurava uma aproximação pessoal com os professores que tive ao longo dos primeiros anos escolares. Era bem-comportado e cumpria as minhas obrigações, quieto no meu canto, sem praticar trangressões significativas e evitando ser focalizado e observado pelo mestre, por discrição e timidez, mas também por querer manter uma certa distância de quem me dava ordens, evitando uma relação pessoal que eu sempre imaginei seria numa condição de desigualdade. Observava porém detidamente aqueles colegas que faziam de tudo para se aproximar dos professores: tinham sempre o que perguntar ou contar na saída das aulas, ofereciam préstimos, davam presentes baratos e caçavam sempre um pretexto de estarem por perto de quem mandava.
Cresci sem digerir bem esse negócio de uma pessoa mandar na outra, e hoje, funcionário público (sempre precisei comer) e em muitas oportunidades obrigado a reportar-me diretamente a autoridades, mantenho a mesmíssima conduta do início dos meus tempos de estudos. Fico por isto indignado com a figura do puxa-saco : gente que não pode ver sequer um terno numa vitrine, que vai logo chamando o traje de doutor e oferecendo um cafezinho ou uma água gelada. "Doutor fulano, o senhor está mais magro, ficou bem assim. " "Doutora, esse modelo ficou lindo no seu corpinho de cento e sessenta quilos." "Olha, gente, o presente de amigo oculto do doutor cicrano tem que ser bem mais caro, tá?" "Gente, tô tão triste! Doutora beltrana vai se aposentar." Este tipo de coisa sempre me indignou profundamente, sobretudo porque aprendi durante a vida inteira - e isto foi uma lição de pai e mãe - que uma autoridade não é maior do que nenhum outro ser humano, uma investidura em alta posição hierárquica não faz ninguém grandioso, a própria grandiosidade é uma coisa muito relativa e de certo modo bastante questionável.
O que acontece, todavia, é que algumas pessoas aprendem a "arte" da bajulação na infância, praticam-na com maestria na idade adulta e procuram sempre se manter perto de poderosos, quer gratuitamente ou para obter sempre benesses dos seus adulados, ou ainda para tentar (e às vezes conseguir) ser um deles. São em geral gente de pouca lealdade, caráter e personalidade frágil, voltada unicamente para os interesses da instituição (privada ou pública) a que servem, sem nenhuma sensibilidade em relação às questões humanas.
Fico tentando entender essa gente, e me pergunto sempre: será que sou idiota de berço? Sou um debilóide mal ajustado às coisas elevadas da vida? Ou seria essa gente absolutamente vil, abjeta, prostituída e desprezível? Na falta de respostas, a conduta de adulação, essa coisa de verem os poderosos como verdadeiros deuses vivos, sempre tratei isto tudo com muita ironia, muita irreverência, muito escárnio e muita raiva, e minha postura já me causou inúmeros problemas, obrigando-me em algum episódio, em atitude de completa incoerência e contradição (confesso para ser verdadeiro), a buscar no poder proteção contra as maldades dele próprio - é uma situação muito constrangedora e que faz você se sentir um imundo verme. Mas que podia fazer? Não foi pra me projetar, foi pra sobreviver e não ser vítima de sacrifício por conta de perseguição e injustiça.
Enquanto me senti sujo por haver pedido favor ao poder, há pessoas que o fazem com a maior cara deslavada, com a paz de espírito de quem desfia rosários em reza por toda a humanidade. Sinto desprezo e pouca simpatia por essas criaturas, e é claro que elas são freqüente objeto de minhas maldosas piadas. Trato até as pessoas que têm poder de mando com reverência e cordialidade, mas sem embutir nisto nada que as faça sentir maiores do que as outras. Mas os puxa-sacos são demais! Na verdade estou me lixando para se alguém é isso, aquilo e aquilo outro, não faço mesmo concessões a ninguém! Se o cara for então alguém sem nenhuma relação com o meu trabalho, ignoro-o então como se não existisse, além de sentir menosprezo por quem porventura se esmere em agradá-lo.
Mas fico tentando entender os aduladores de carteirinha. Às vezes tenho até boa-vontade: em várias oportunidades, diante de belas mulheres de alto cargo público, tive vontade de examiná-las para saber se eram feitas de alguma matéria diferente da nossa. Só não satisfiz a curiosidade porque certamente seria punido por correr o risco de não ser compreendido em meu alto intento de pesquisa científico-filosófica. Quanto aos bajuladores, preocupo-me sempre com eles: acho que poderia minimizar o problema de adulação inserindo-os em práticas esportivas: por exemplo, tiro ao puxa-saco, malhação ao puxa-saco, lançamento de puxa-saco à distância.
Conheço sujeitos que já andam com um tapete vermelho embaixo do braço, prontos para estendê-lo em caso de darem de cara com algum detentor de poder. Conheci um outro que me fez levantar a tese de que o puxassaquismo seja hereditário: ele andava sempre com uma escova de roupa na mão, para remover eventuais caspas de ternos de eventuais manda-chuvas, e era filho de um voluntário ajeitador de insígnias, que era filho de um voluntário ajeitador de medalhas militares, que era filho de um voluntário ajeitador de togas, que era filho de um voluntário lustrador de cetros, cujo pai emprestava a mulher aos nobres. Uma vez um bajulador muito católico e muito devotado me disse que adular seria uma prática extremamente válida: "... se até no Reino dos Céus alguns querubins agradam ao Senhor de todas as maneiras, esperançosos de um dia serem promovidos a serafins. E veja bem: se Adão e Eva tivessem um pouquinho de puxassaquismo, não teriam desobedecido e comido do fruto proibido para serem expulsos do Paraíso."
O grande problema do puxassaquismo é que ele às vezes me parece um mal pandêmico, e o pior é que os puxa-sacos de grande envergadura acham que deveriam servir, em matéria de relações humanas, de referência às outas pessoas. Durma-se com um barulhos desses!
2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DO FATO DE SER CONTRÁRIO

A minha postura com relação ao sistema torpe que grassa no Brasil é bem simples: sou contra tudo, contra todos, contra tudo o que é a favor e, por uma questão de desconfiança, contra tudo o que é contra.

DA DETESTABILIDADE MINHA E DAS COISAS

Sou uma pessoa detestável, porque detesto tudo, detesto detestar tudo e detesto quando não detesto algo. Porque tudo é detestável: detestável o que é detestável, assim como é detestável o que não é detestável, exatamente pelo fato de não sê-lo. Em outras palavras, o bom-mocismo dos benquistos é algo de uma babaquice e hipocrisia repugnantes.