Barão da Mata - Verdades e Diversidades

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domingo, 9 de junho de 2013

OS ESTADOS UNIDOS EXPLODIRAM A INTERNET

Quando o Leônidas ligou me dando conta de termos tido 120 acessos americanos dentre o total de 180 obtidos num certo domingo, não vi grandes motivos para preocupações.  Afinal, há tantos brasileiros vivendo nos Estados Unidos e sentindo saudades do Brasil, que não dei nenhuma relevância ao fato de ele achar que estaríamos sendo investigados.  Tanto não dei importância, que aproveitei a chance e fiz chacota da situação (se você quiser ver, o link é http://pensadoresdebirosca.blogspot.com.br/2013/05/os-cento-e-oitenta-acessos-e-o-agente.html ).  Alguns dias depois, todavia, o Gmail me indagou se eu tentara acessar meu e-mail de um computador do país norte-americano.  Respondi que não, e eles me aconselharam a trocar a senha. Obedeci e comecei a levar a questão mais a sério.  E passei a prestar atenção maior ainda aos fatos depois das matérias divulgadas pela imprensa, onde se revela que Obama e companhia estão escarafunchando todos os sites, redes sociais, e-mails e tudo o que se pode ter em matéria de internet.  Tão fuçando tudo (com o perdão dos porcos pela analogia).  Os seguintes links bem corrroboram o que digo: http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2013-06-07/obama-programas-de-vigilancia-dos-eua-equilibram-seguranca-e-privacidade.html



Leônidas me dissera que a razão de eu estar sendo (ou
supostamente sendo), digamos, "vigiado" pelos caras seriam algumas expressões-chave, como "capitalismo perverso", e eu atribuiria uma suposta vigília a eu ter dito que Kennedy foi um dos mentores do golpe militar que eliminou inúmeros brasileiros, que Abraham Lincoln não foi o heroico libertador de negros que os americanos acreditam (tendo até uma postura, segundo o historiador  J.J. Almeida Arruda, moderada diante da Guerra de Secessão), que, com todo o respeito pelos inocentes mortos no 11 de setembro de 2001, a data que o Brasil deve sempre rememorar é o 7 de setembro de 1822 (ou seja, o 7, não o 11 de setembro), que, se é para nos enlutar todo 11/09, que o façamos também todo 6 e 9 de agosto, datas em que Harry Truman devastou Hiroshima e Nagasaki com duas bombas atômicas que mataram velhinhos, crianças, mulheres, cachorros, gatos, civis e todo tipo de inocente, num momento em que o Japão só atacava os navios americanos por intermédio de pilotos kamikazes, pois já estava aniquilado na Segunda Guerra.
Tudo o que disse,entretanto, não faz de mim (sem ironia) nenhum antiamericano: não tenho nada contra a sociedade americana e ainda sou admirador de atores como Al Pacino, Morgan Freeman, Robert De Niro, Jack Nicholson, Math Damon e outros.  Toda a minha antipatia é pelas autoridades, políticos, mandatários, racistas, belicosos e reacionários do país.   E isto não se dá sem motivos, porque quem é que pode gostar de um Estado imperialista?  E sabe no que imperialismo  implica? Em conquistas.  E sabe em que conquistas implicam? Em massacres, gente inocente mutilada, mulheres estupradas, crianças assassinadas, casas de família incendiadas, hospitais explodidos, em carnificinas horrendamente dantescas.  Há, então, como admirar homens que promovem coisas deste gênero?
Ora, o que o Obama e seus asseclas estão fazendo é terrorismo  de Estado, cerceio ao nosso direito à privacidade e à liberdade de expressão.  Equiparei uma vez esse verdadeiro monstro a George W.Bush (http://baraodamataprosa.blogspot.com.br/search?q=TROCANDO+AS+BOLAS ).  Ora, os governos americanos são, em sua maioria absoluta, de vocação expansionista, e esse mascarado do Partido Democrata que exerce a presidência não poderia ser diferente.
Quanto a nós, meros mortais, só o que  nos cabe é não mais depositar   confiança na internet, além de ficarmos cônscios de que o governo brasileiro, afinado com práticas autoritárias e antidemocráticas, não expedirá uma linha de repúdio aos atos dos terroristas ianques.  Quem sabe tenhamos de voltar a nos corresponder através de cartas de papel envelopadas, via Correios... se os governos brasileiro e americano não nos submeterem  as cartas a radiografias, ultrassonografias, ressonâncias, etc...

Barão da Mata

domingo, 19 de maio de 2013

MINISTRO DECIDIU QUE MAIORIDADE PENAL NÃO VAI SER REDUZIDA E FIM!


O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, profere, no plenário do conselho Nacional de Justiça, que nem uma emenda constitucional pode alterar a maioridade penal para dezesseis anos.  Convertido a sumo jurista da República, decidiu o que é e o que não é cláusula pétrea..  Aí eu fiquei confuso: afinal quem vai violentar a ordem jurídica é o Legislativo ou o Executivo?  O Brasil, deve ter pensado, não precisa desse negócio de autonomia entre os poderes e definição do papel de cada um deles: o PT é quem manda e ponto final! O mais é coisa de idealista, de gente romântica que acha que o mundo tem de ser assim ou assado.  Aí  eu fiquei pensando: se Sua Exa. decidiu assim, provavelmente a matéria nem será apreciada pelo Congresso: a palavra final tá dada e pronto!
O que ele, porém, não vê é que o crime organizado, por exemplo, vem utilizando há muito tempo a "mão-de-obra" de menores de dezoito, justamente pela ausência de risco de estes mofarem nas penitenciárias, porque, de acordo  com a aberração jurídica estabelecida, um rapaz de dezesseis anos é capaz para decidir quem governa o país, mas não para responder por seus erros.  Isto é um grande incentivo à criminalidade, porque a impunidade fulcrada em lei estimula o indivíduo a cometer mais e mais atos perversos e, o que é pior, mortais.  Acho impressionante o fato de que a sociedade inteira consegue enxergar isto, mas o ministro e o PT, não.  Não é à toa que digo que o PT tem o pior oftalmologista do mundo: deve ser algum companheiro muito afeito a rapapés e muito empenhado em ajudar na perpetuação do partido no governo e completamente esquecido das peculiaridades de seu ofício de fazer enxergar melhor.  
Agora, sem ironias, a verdade é bem outra: eles contam é com os votos dessas pessoas, de suas mães e familiares agradecidos, porque a maioria absoluta dos delinquentes juvenis é de camadas carentes, que também correspondem à parte maior da população brasileira, e é com a maioria dos votos que alguém se elege, seja para administrador ou parlamentar.  Quem pagará por tais erros serão as pessoas de bem e mesmo as de mal que vivem no território nacional: mães continuarão a chorar seus filhos, mais mães ainda  irão chorar filhos mortos, porque a legenda do governo e seus asseclas precisam de votos ao preço de a violência ficar de estável a crescente - ou você acha que esta complacência ante a violência vai surtir outro efeito?
Se é para prestar a minha colaboração a esse estado de coisas que esses políticos acham justo, quero sugerir que instituam logo o bolsa-crime, com o cadastramento dos menores envolvidos com atos ilícitos ou hediondos, para que estes possam gozar o benefício de dois a três salário mínimos mensais como forma de compensar a periculosidade das funções por estes exercidas.  Vai dar voto de enxurrada!

2013

terça-feira, 14 de maio de 2013

DE QUANDO O DEBATE É INÚTIL

Perda de tempo é tentar argumentar com o oponente absoluto, o cínico, o ignorante e aquele que não quer de nenhum modo deixar valer suas ponderações.

domingo, 12 de maio de 2013

VÂNIA E OS DOIS IRMÃOS

Toda santa sexta-feira era aquele diabo!  Euclides nunca vinha para casa.  Vânia ficava esperando, o banho tomado e o corpo perfumado, um vestido curto de tecido leve e quase transparante, como se o marido fosse, surpreendentemente, chegar antes da madrugada, percorrer os olhos pelas suas coxas e pelo vestido a esvoaçar levemente com o vento, apalpar-lhe a cintura, os seios e as nádegas, sentir nas pontas dos dedos a textura do vestido, despi-la, possuí-la num ímpeto febril... Mas tudo isso eram devaneios! O danado sempre voltava na manhã de sábado ou então em profunda madrugada.  E naquele dia não seria diferente: passaria a noite na esbórnia, chegaria bêbado, cheirando a cigarro e perfume barato, com todos os indícios de haver passado a noite com alguma vagabunda.
Vez por outra vinha com hematomas, sinal de haver-se metido em alguma briga, mas nunca dava satisfações ou se explicava.  Mesmo que viesse com marcas de batom!
-- Sai pra lá! Vai dormir! Tava com mulher porra nenhuma! -- limitava-se Euclides a rugir quando ela notava alguma pista mais clara de o marido havê-la traído. Outras vezes ela reclamava quando o pegava sóbrio:
-- Você só quer saber de beber e chegar de madrugada.  Esquece que tem mulher.  Você acha que isso é casamento?
Ele se limitava a ficar murmurando entre os dentes alguma coisa que  mal se entendia, mas nunca se dispunha a discutir a questão.  
Era aquele sofrimento toda sexta-feira.  Mas Vânia não sofria só nos finais de semanas: era praxe ele ficar pelos botequins quase diariamente, muito embora não madrugasse nos outros dias, chegando sempre entre dez e onze da noite.
Não faltava, ou pelo menos não faltava tanto com os deveres de marido.  Buscava-a na cama, fazia amor, mas com um carinho e uma frequência menores do que ela desejava.  Vânia não sabia se ele ainda a amava, nem mesmo se ela própria continuava a nutrir amor pelo marido.  Mas sentia uma necessidade quase orgânica de ser acarinhada, de ter os dedos de alguém por entre os  cabelos, de ter a boca demorada e intensamente beijada... como nas novelas que via... como nos romances de bolso que lia... como fora no seu tempo de menina, de recém-casada.
Estavam ambos casados já havia cinco anos, não tiveram nenhum filho por ser a mulher infértil, e às vezes esta presumia ter sido por isso sua a culpa do desgaste daquele casamento -- muito embora Euclides jamais houvesse reclamado do fato.  Mas a questão é que Vânia tinha a sensação de haver-lhe feito um homem a sentir-se incompleto, frustrado, que a punisse  com a ausência e a desatenção o fato de não ser pai.
Era difícil o Euclides: quase não falava, quase não sorria.  Era pedreiro e vivia aporrinhado e resmungando sobre os ossos do seu ofício.  Vivia cansado ou então enfiado nas suas bebedeiras.
- Merda de vida...! - costumava queixar-se com sua voz quase gutural - Muito trabalho e o dinheiro pouco.  Só trabalho e aborrecimento... Isso lá é vida!?  
Aos sábados e domingos aquela sensação de solidão seguia a apertar o peito de Vânia: ele acordava tarde e pouco falava, ora comido pela ressaca, ora enclausurado em seus pensamentos e seu mau-humor, os olhos voltados para a televisão.  Diabos! Três anos de namoro e cinco de casamento, e Vânia pouco conhecia o seu homem.
A casa era triste e silenciosa, monótona, tediosa, e só ganhou alguma vida quando Eusébio, o irmão mais velho de Euclides, chegou de Aracaju e instalou-se num quarto-com-banheiro que Euclides construíra no fundo do quintal para abrigar o outro.
Eusébio era falante embora parecesse tristonho. Às vezes mergulhava em profundo silêncio, mas não era como o irmão.  Era mais comedido; não se encharcava de bebida, era sociável.  Euclides recebeu-o com enorme alegria, entregou-lhe o quartinho que lhe levantara com grande satisfação.
-- Vê só, mano: com o tempo você aumenta esse teu quartinho, pega um pedaço maior do terreno e me paga aos pouquinhos: o importante é nós ajudar um ao outro.
Depois da chegada de Eusébio, Euclides tornou-se mais caseiro, raramente madrugando às sextas, chegando quase sempre cedo nos outros dias, e Vânia percebia que isso se dava porque o irmão estimulara-o a ficar em casa a trocar ideias, e também pelo motivo de, como era bastante notório, o marido temer ser traído pela esposa com o cunhado.
Logo Eusébio empregou-se, numa obra cujo encarregado Euclides apresentou-o.  O irmão desempenhava suas tarefas com habilidade, também era um pedreiro de grande competência.
Alguns dias Eusébio chegava do trabalho, banhava-se e comia da comida que Vânia preparava, ficava a conversar longamente com o casal, a tocar em vários assuntos, a rememorar os tempos da infância de extrema pobreza vivida  em Nossa Senhora do Socorro, e a ida da família para Aracaju.  Recordavam  os pais já falecidos e comentavam da impossibilidade de permanecer na terra natal por conta da inexistência de perspectiva de condicões razoáveis de subsistência, da posterior necessidade de deixar a própria Aracaju por razões semelhantes, e Eusébio tinha também uma dor atravessada no peito:
-- Não sei por que a Cássia me deixou. -- lamentava-se -- Eu não fiz nada de mal com ela.  Uma ingrata! Tu não sabe, mano, como eu gostava daquela mulher.
Cássia era a mulher com quem vivera durante dez anos, que nos últimos tempos de vida conjugal não lhe dera mais importância, não lhe fizera mais elogios nem agrados, pouco aceitou-o no leito e tinha-o na conta de quase um traste, além de, num fatídico dia, olhá-lo com um olhar de profundo desprezo e dizer-lhe:
-- Não quero mais viver com tu.  Eu não gosto mais de você.  Vou viver minha vida longe de você.  
O homem lamuriava-se quando trazia à tona aquelas lembranças, e Vânia sentia que identificava-se de certo modo com ele, pois  era uma mulher com o mesmo sentimento de abandono que acometia o cunhado.  Estava casada, vivendo com o marido, deitando com o marido, mas era uma mulher abandonada como qualquer outra sem homem.
Quando encontrava-se sozinho com a cunhada, Eusébio nunca entrava na casa desta, por respeito ao irmão e para não causar impressão ruim a qualquer vizinho que casualmente por ali passasse e o visse entrar, e também porque sabia que Eusébio não gostaria.  Mas ficava sentado a uma cadeira, no quintal, e naqueles momentos sentia-se mais à vontade para falar com maior detalhamento sobre a saudade do norte e principalmentte da tristeza de ter perdido Cássia.
Já se haviam passado dois anos e ele não a esquecia. Tinha  a autoestima ferida, um sentimento  de extrema  solidão, a sensação de uma coisa que doía fundo dentro do peito.
A partir de um certo tempo, Vânia também encorajou-se a relatar tudo aquilo que  corroía-lhe a alma e a fazia infeliz, a queixar-se do marido, que tornara-a uma mulher ávida de afeto e frustrada, triste e solitária.  À medida em que os dois sentiam-se mais à vontade para trocar confidências, Euclides tornava-se mais frequente na esbórnia das sextas e nas pequenas bebedeiras dos outros dias, agora já sem dar muita atenção ao irmão, voltando pouco a pouco a ser o mesmo caladão de antes.
Se, quando o irmão era recém-chegado, o marido de Vânia, enciumado e temeroso, procurava-a na cama com mais frequência, agora voltava a ser o mesmo de antes, voltado para as suas bebedeiras, seus maus-humores e seus pensamentos.  Enquanto mulher e cunhado conversavam quase todas as noites, ela à porta da sala, ele sentado na cadeira do quintal. Até que um belo dia Eusébio entrou.
Vânia colocara um daqueles vestidos leves e curtos com que sempre esperava o marido, e o cunhado  começara a pensar que ela o fazia para ele. Eusébio.  Contivera o desejo mais que pudera,  mas o problema era que aquele equívoco devolvia-lhe tudo aquilo que a ex-mulher  lhe roubara: a autoestima, o desejo de viver,  a sensação de ser um homem à altura da palavra.
Durante a conversa, parou de repente e tomou um pulso de Vânia.  A expressão da mulher era de estupefação, mas ela não relutou, não o repeliu, apenas ficou a encará-lo, os olhos arregalados, incapaz de dizer palavra .  Eusébio foi conduzindo-a para dentro de casa, ela deixou-se levar como um autômato, e os dois se amaram com a entrega e a volúpia dos amantes dos mais picantes romances de amor.
Os dois se deram como que loucamante enamorados, e trocaram tantas carícias e tantas juras de amor, que mais pareciam dois adolescentes embevecidos no primeiro ato sexual de suas vidas.  E desfrutaram plenamente  cada momento,  cada gemido,  cada suspiro,  cada palavra quente, naquela noite de delírios,  em que ambos sentiram-se apaixonados e correspondidos, felizes como se fosse impossível existir na face do planeta qualquer sentimento ou  coisa diversa da luxúria, da paixão e da felicidade.
Tão logo deixaram o quarto e vinham saindo,  ainda ajeitando as roupas e sentindo-se leves como flutuassem, Euclides surgiu na sala, bem diante dos dois.
Ficou longos momentos sem palavra, os olhos febris de ódio, a voz entalada na garganta,  a boca aberta numa estupefação inefável, porque, apesar das suspeitas de que aquilo já estivesse acontecendo antes, tivera durante o período de desconfiança a esperança de estar equivocado.
-- Desgraçados! Filhos da puta! Vagabunda! Puta suja! Maldito asqueroso! - gritou e rugiu ao mesmo tempo, e sentia um furor demoníaco.
Teve um ímpeto de pegar o facão na cozinha e acabar com os dois, que permaneciam imóveis e sem ação.  Mas conteve-se, ofegante:
-- Some os dois daqui...  Pega tudo o que é de vocês e some da minha frente agora.
Eusébio quis dizer alguma coisa...
-- Cala, desgraçado! -- berrou novamente Euclides -- Senão eu te mato! -- Foi saindo, ofegante: - Some os dois daqui agora.  Vou até o botequim.  Se eu encontrar um de vocês aqui quando eu voltar, eu mato.
A rua encheu-se de gente.  Euclides passou carrancudo pelo meio das pessoas, enquanto os amantes estavam quedados e pálidos de vergonha diante dos vizinhos.
Arrumaram as roupas, fretaram uma kombi e saíram do bairro.  Dentro do veículo Eusébio ainda murmurou para ela:
-- Não sei dizer o que tô sentindo.
 Vânia comentou com um ar  de desânimo o olhar distante:
-- Eu vou sumir.  Vou pra casa da minha mãe, que é bem longe. Quero esquecer o dia de hoje.  Tô me sentindo uma piranha! Uma vagabunda!
-- Meu Deus! -- Eusébio levou as mãos à cabeça, não sabia o que mais dizer.
Passado pouco mais de um ano, ele,  Eusébio, numa tarde de domingo, procurou o irmão.  Euclides, que a princípio relutou  em dirigir-lhe a palavra,  por fim acabou por fazê-lo.
-- Só não entra, seu traidor.  Eu falo contigo aqui do portão mesmo.
-- Meu irmão, eu não queria te fazer de besta...
-- Não me chama de irmão, seu maldito...!
-- Desculpa, Euclides, mas não foi por maldade...
-- Você veio me esculachar, filho da puta!? - rugiu com o olhar fuzilante.
-- Não, por favor, não é isso.  Eu só queria te dizer que foi uma doideira... Mas é que eu tava morrendo de tristeza, tinha uma dor que me maltratava...
-- Desgraçado!  Você me traiu com aquela... -- longa pausa -- Ela era a coisa que eu mais amei  nessa vida...
-- Perdoa, Eucli...
-- Nunca!
Eusébio botou a mão no peito:
-- É que eu sentia uma tristeza tão grande, uma coisa que me matava aos poucos, que me doía fundo aqui dentro...
Euclides bateu o portão, deu as costas ao irmão, percorreu o quintal, entrou na casa batendo também a porta da sala. Eusébio murmurou para si mesmo:
-- Uma coisa que mata aos poucos... que dói fundo aqui no peito...
 

2008


PREDESTINAÇÃO


Robert tinha a consciência de que era um predestinado.  Sobretudo porque era talentoso, e já na infância dera evidentes sinais de seu potencial, com sua inclinação e facilidade para lidar com os números e as ciências, sobretudo as biológicas.  Na adolescência, recebera inúmeros elogios dos seus professores de Biologia, o que alimentara os desejos dos pais e do próprio de que este abraçasse a Medicina.
Filho de família classe média com bom padrão financeiro, ao terminar o curso secundário, ingressou na faculdade para a carreira desejada, alcançando um dos primeiros lugares no vestibular.  Isto o fez ainda mais cônscio de que tinha brilho, e deu-lhe a certeza, também alimentada pelos pais, de que o talento nunca vem sozinho: traz sempre a reboque uma missão, uma predestinação, no caso dele a de salvar vidas, tornar-se renomado, envolver-se em pesquisas, descobrir curas, ajudar a humanidade tão carente de auxílio por conta de sua precariedade e ignorância.
-É um desígnio de Deus, uma missão divina. - diziam-lhe sempre os pais, adeptos do espiritismo de Allan Kardec - Todo mundo tem uma incumbência na Terra, ninguém nasce com talento à toa.  Deus é perfeito e nada é por acaso.  Por isto, não neglicencie nunca quanto à elevada tarefa que Ele te deu.
Tal consciência arraigou-se na mente de Robert, que tinha este nome pomposo apesar de brasileiro filho e neto de brasileiros, e este levou os estudos a sério, formulando inclusive planos de ajudar o próximo com alguns atendimentos gratuitos, sem deixar, é claro, de obter os frutos financeiros dercorrentes da profissão.  Ficava a imaginar seu consultório suntuoso,  a construção e crescimento de sua reputação, secretárias bonitas, a reverência dos clientes e a gratidão daqueles a quem atenderia gratuita e caritativamente.  Um futuro grandioso, definitivamente, o esperava.
Na universidade, mostrava-se um aluno do quilate das raras inteligências, na vida pessoal, era benquisto por todos e só tinha algum problema com o seu excessivo magnestismo, pois com frequência era forçado a dar verdadeiros dribles em uma ou outra namorada, já que, com eu já disse, o seu execessivo carisma não lhe permitia envolver-se com uma única moça. 
Quando o universitário já contava vinte e três anos e já se aproximava o tempo de concluir a faculdade, quando este ainda tinha ainda alguma dúvida sobre a especialização a fazer, foi encontrar uma das belas com quem mantinha relacionamento.
Era uma tarde bonita, meio de semana, e Robert postou-se no lugar onde o encontro fora marcado.  Acontece que um carro que vinha em alta velocidade perdeu a direção, subiu a calçada e atropelou Robert, que teve morte instantânea e nos deixou sem saber responder o que fora feito de sua predestinação, dos desígnios de Deus, de sua missão atrelada ao talento, da tarefa de curar e salvar vidas, de auxiliar humanos sofredores, e do futuro magnífico e elevado que sempre o aguardara.

2008        

domingo, 28 de abril de 2013

O EMBUSTE DA DEMOCRACIA E O TOLHIMENTO DO JUDICIÁRIO

Sempre disse que não acredito nesse embuste que os políticos, por desonestidade e demagogia, chamam inadequadamente de democracia.  Não que não exista democracia: existe, sim, e é praticada (não inteiramente a contento) nos países avançados, cujos governos precisam prestar contas às sociedades  sob sua jurisdição. O Brasil, como todas as outras repúblicas latino-americanas, tem uma  tradição   autoritária de mais de quinhentos anos, e não foi nem será em vinte ou trinta anos que conseguirá romper com um vício tão  profundamente enraizado - como um câncer - nas entranhas.  Já dizia o meu bisavô que o hábito do cachimbo faz a boca torta, e os países aqui do hemisfério têm as bocas com grave curvatura há séculos. 
Corrobora o que digo a Argentina, cuja presidente, Cristina Kirchner, engessou o Judiciário e agora pode governar da maneria como acha justo governar, sem interferências de justiças, que a seu ver tolhem as ações de qualquer governo bem-intencionado e sábio o bastante - como o dela - para exercer também o outro poder ou simplesmente não se incomodar com ele.  Como é sabido, as coisas aqui vêm tomando o mesmo rumo: com o pretexto da bancada evangélica de impedir "desmandos" do STF em relação às células-tronco e ao aborto, e agora o do PT de retaliar acerca da condenação de petistas no processo do mensalão, o Legislativo agora resolve dar seguimento à matéria que a CCJ da Câmara aprovara por unanimidade no ano passado, que lacra a boca e amarra as mãos do Judiciário ante o Congresso, que agora quer ser a última instância de Justiça, uma espécie de poder moderador e reformador das sentenças da ainda suprema corte.  Se for bem-sucedido em sua empreitada, o corpo  de parlamentares agora exercerá também os dois poderes, já que assim dará a palavra final em matérias pertinentes à instituições jurídicas.
Será jocoso além de trágico ver homens que são parte reclamada em processos sobre corrupção mudarem sentenças proferidas pelo poder que os condena. Pressuponho que o presidente do Senado, Renan Calheiros, vá se tornar a autoridade máxima   em termos de Justiça por aqui e virá a poder  modificar tudo o que seja votado no plenário do hoje acuado STF.  É também possível que as determinações do Judiciário sejam analisadas nas duas casas, Câmara e Senado, mas de qualquer forma se irá consumar o que tanto se pretende, quer na esfera do Executivo como do Legislativo: o esvaziamento e a humilhação da corte mais alta, a sua transformação num tipo de bobo-da-corte e a maior liberdade dos políticos afeitos à corrupção para se movimentarem livremente, sem o risco de sofrerem execração pública e condenação, pois todo ato ilegítimo será doravante contornado e contemporizado domesticamente, dentro do âmbito do próprio Congresso.  Irá capitalizar benefícios da situação também o Executivo, que saberá como sabe há mais de quinze anos manter para os congressistas as benesses que os fazem absolutamente dóceis e tornam a Câmara e o Senado  entidades com o papel único de homologar os atos da Presidência da República.
Este cenário endossa a minha tese de que não há democracia aqui nesta parte da África, onde as regras do jogo são sempre modificadas em pleno transcurso para atender aos interesses do dono da bola. 
A coisa fica ainda mais estapafúrdia quando se fala em negociar os termos da liminar deferida pelo ministro Gilmar Mendes aos pequenos partidos para que os parlamentares não degustem a Justiça, porque, ao menos a meu ver, é melhor render-se ao inimigo do que negociar o inegociável, do que conceder o inconcessível, já que é um verdadeiro achincalhe querer transformar um despacho ou sentença de um membro de entidade jurídica  em objeto de barganha.
Uma sociedade mais esclarecida já se teria pronunciado e no nosso caso, entretanto, não se pode esperar muito de quem viu o patrimônio público ser torrado em liquidações mirabolantes sem se manifestar. Não vislumbro os nobres concidadãos entendendo que, se em poucos ou muitos momentos a Justiça não lhes parece confiável, não tê-la numa situação de autonomia é muito  pior.  Tenho a esperança de que os magistrados se mobilizem e a famigerada articulação seja divulgada numa repercussão tão grande, que desencoraje qualquer político de apoiar o projeto.
Enquanto a coisa fervilha, o governo finge omissão quando é na verdade o grande beneficiário  dos ímpetos do Parlamento, seja por retaliação pelos  correligionários afetados pelo julgamento do processo 470 ou por conseguir, caso seja aprovada a mordaça da Justiça, também no futuro mover-se e praticar mandos e desmandos com uma liberdade invejável.  O que se poderia esperar de um PT tão afeitos a mordaças, que já pensara em calar a imprensa e hoje se vê na iminência de se deleitar em exercer um governo totalitário, trazendo a reboque um congresso feliz em exercer uma função meramente homologatória no cenário nacional?  Esse mesmo PT, o monstro que  não criei mas, como tantos outros, ajudei a alimentar durante mais de dez anos, sem saber que a legenda combatera durante tanto tempo a ditadura militar porque não queria senão implantar uma ditadura própria no lugar daquela. 


2013

sexta-feira, 19 de abril de 2013

TROCA DE BILHETES ENTRE GERENTE E CHEFE DE COZINHA SOBRE COMO SERVIR LULA


Gerente para chefe de cozinha:
"Prepare lula para longa degustação de muitas pessoas."
Chefe para gerente:
"Tenho dúvida. Lula é para o evento de agora ou para daqui a dois eventos?"
Gerente para chefe:
"Independentemente de evento ou não-evento,  não vê que, desde 2003, ou lula vem por cima ou sempre tem uma pitada de lula em tudo?"
Chefe para gerente:
"Como devo servir lula? À dorê?  Com brócolis? Devo fritar?"
Gerente para chefe:
"Impossível fritar lula.  Isto só aconteceu uma vez, em 1989, quando se fritou lula ao molho cordeiro, um molho colorido que era muito ruim, que não foi tolerado e acabou numa frigideira bem antes do tempo previsto.  Mas a questão é que não há mesmo como fritar lula.  Por volta de 2004/2005, serviu-se lula enrolada, escondidinho de lula, lula com cobertura, mas frita, nunca mais!  Esqueça esse negócio de fritar lula; não dá mesmo!  E tem mais. Daqui a no máximo dois eventos vamos servir lula novamente, e, se o pessoal já gosta tanto que se lambuza de pitadas de lula em tudo, imagine quando for o prato principal.   Se for inteligente, não tente fritar. O prato é indigesto, mas é moda desde 2002, meu filho: agora não sai nunca mais." 

Barão da Mata