Barão da Mata - Verdades e Diversidades

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sábado, 17 de abril de 2010

AS AVENTURAS DE JONAS, O SALAFRÁRIO -- EPISÓDIO DE HOJE: "O SEXO DOS ANJOS



Quando o deputado Sandro Lessa, que defendera o debate sobre o sexo dos anjos, deixou o plenário, foi logo cercado por Jonas Pereira Jojoba, que se fazia acompanhar de Armando Lontra, conhecidíssimo lobista.
- Pô, Lessa, gostei da tua ideia!
- Mesmo? Obrigado. - e tentou sair andando, mas foi parado pelos dois.
- Ô Lessa, peraí, cara! Tu não percebeu a magnitude da coisa?
Lessa parou a pensar por momentos, respondeu:
- Ué? Você não sabia que essa discussão é só pra desviar pra ela própria a atenção da opinião pública, enquanto a gente discute o fim de um monte de direitos dos trabalhadores...? Foi isso que nos encomendaram: fazer um alarde sem tamanho em torno de um assunto sem importância e votar na surdina temas que vão prejudicar as classes trabalhadoras.
- Sei disso - ratificou Jonas - Sei e tô dentro da jogada, meu filho. Não é à toa que a mídia vai dar amplo apoio e divulgação à questão do sexo dos anjos, porque é preciso desviar os olhares da classe trabalhadora.
- E não podia deixar de dar - continuou Sandro Lessa - se eles, donos de jornais e de tevês empregam um monte de gente e vão também se beneficiar...
- Sem contar os incentivos fiscais - entrou o lobista Armando - verbas para custeio de projetos próprios, porque o governo e os políticos desta Casa, na maioria patrões, sabem ser gratos a quem os apoia, principalmente sabendo que vão precisar sempre desses mesmos que hoje lhes dão sustentação... Mas não é essa a questão.
- É! Apoiou Jonas - Não é essa a questão.
- Então - indagou Lessa, já meio impaciente - qual é questão?
Jonas gesticulou:
- Pô, Lessa, tu não sacou?!
- Pô, Excelência, tu não sacou? - apoiou Armando.
- Não. - respondeu Lessa.
- É o seguinte - começou a explicar Jonas: - Esse negócio de sexo dos anjos, com ampla cobertura da mídia e coisa e tal, vai permitir que a gente evite alguns temas realmente polêmicos, como também destrua direitos sociais sem ninguém perceber, além de ter um ponto muito mais interessante..
- Mais interessante?
- É, Lessa! Di-nhei-ro pú-bli-co pa-ra a pes-qui-sa do se-xo dos an-jos, en-ten-deu?!!!
- Ah! - atinou Sandro Lessa.
- Pô, Excelência ! - manifestou-se o lobista.
Sandro, animado, quis logo os detalhes:
- E como a gente vai fazer?
- É aí que eu entro - disse o lobista - Eu conheço um mago que "sexangeia"
como ninguém...
- "Sexangeia "?
- Pô, Excê! Um cara que vive de desvendar o sexo dos anjos... Vai cobrar uma fortuna!
- Mas peraí - replicou Sandro - Se ele vive de desvendar, então já descobriu, não é preciso pesquisa...
- Pô, doutor, não é bem assim...
- Ué? Mas se ele vive de desvendar, como já não sabe?
- Pô, Excê! Ele vive de desvendar, mas não quer dizer que ele saiba...
- Ué? Como é isso, então? Se vive de desvendar e nunca desvendou, então passa fome, já que nunca desvendou?
- Não disse que nunca desvendou, Excê.
- Ele então já sabe qual é o sexo.
- Também não disse isso, doutor.
- Ora, seu Lontra, então me explica essa história de uma vez por todas!
- Pois é, doutor, não tem explicação...
- Ora, seu Lontra, mas como assim?!
- Não sei assim como, Excelência, mas é assim que vai ser.
- Ué?!
- Pô, Lessa, acorda! - interveio Jonas - É assim que vai ser pro povo! É pra não entender nada mesmo! As pessoas não vão entender nada, mas vão se interessar pra caramba!
- Aaaah!
- Entendeu, doutor?
- Agora, sim!
- Pois é, doutor. Quanto menos nosso mago definir as coisas, mais dinheiro será necessário pra pesquisa. E nada se descobre, e haja pedido de verba pública pra continuar a pesquisa!
- E quem vai aprovar?
- Nós, os parlamentares, Lessa!
- E os "home" lá vão estar de acordo?
- Bicho! - contou o lobista - Já falei com eles: tem um bocado de gente entre eles que já tá escolhendo os iates pras suas amantes.
- Ah, bom!
- Vamos lá, Lessa! - Jonas bateu no ombro do outro parlamentar. - Vamos arregaçar as mangas e pôr mãos à obra. É hora de faturar, meu nego! Faturar, meu filho! Faturaaaar!
Os três trocaram abraços, sorrisos e elogios, e Armando Lontra ainda disse em tom solene e emocionado:
- Não podemos perder a oportunidade de ser inseridos neste momento histórico. São homens como nós que constroem os destinos da nação.


2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A CRIMINALIDADE E A DISCURSEIRA

A gente sabe perfeitamente o quanto é complexa essa questão do crime organizado, do tráfico de drogas no Rio, em São Paulo e em outros Estados do Brasil. Defender que a educação é a melhor medida é extremamente válido e positivo, além de muito, muito acertado. Mas tal remédio é preventivo, enquanto, porém, é preciso alguma ação efetiva contra a criminalidade que já está presente, formada, alojada, instalada, alicerçada, cristalizada, ou você acha que algum chefão do tráfico esteja disposto a freqüentar a escola para começar uma vida de homem de bem?
No plano em que discuto, fala-se ostensivamente em combate ao crime, tererê e pão duro, mas ostensivo, na verdade, é o discurso, a falácia. Entra governador e sai governador, o crime fica a cada dia mais robusto, mais vigoroso, mais pétreo. Vira e mexe, o governo federal manda umas tropinhas pra cá, a bandidagem, como boa anfitriã que é, aquieta-se um tempinho para deixar as tais tropas à vontade, e as forças armadas, agradecidas e lisonjeadas, logo, logo lá se vão de volta aos seus quartéis, cercadas de paz e naquela preguicinha boa de quem nunca precisa guerrear.
Vez por outra aventa-se a possibilidade de as drogas serem legalizadas e, com o fim do tráfico, as quadrilhas se desmontarem. Interessante opção, se as forças policiais estivessem equipadas e preparadas para o combate a esses indivíduos, que, "desempregados", dedicar-se-iam com maior afinco e freqüência a outras modalidades de crimes: assaltos à mão armada, seqüestros, comércio da morte e outras do gênero. Aí, para caírem os índices de criminalidade, seria preciso legalizar o tráfico de crianças, de órgãos, de animais, de mulheres, o comércio da morte, o assalto, o roubo, etc, etc... e aí, sim! Todos estaríamos felizes, porque, legalizadas as citadas "atividades", nada mais seria crime, e bandidos - então convertidos por força da nova legislação a cidadãos de bem - e autoridades seriam felizes para sempre.
Não é bem assim que a banda toca (ou ao menos não deveria tocar). A legalização das drogas não seria nociva se as autoridades estivessem preparadas e dispostas a dar efetivo e maciço combate ao crime, o que requereria investimentos, gastos, empenho, vontade política, seriedade, não discursinhos de palanque ou falácias em programas e jornais de tevê. Uma sociedade bem protegida não tem motivos para se preocupar com a legalidade ou ilegalidade das drogas. Não uso drogas e não me detive ainda a formar opinião sobre se a droga deva ser legal ou ilegal: penso que a discussão a tal respeito é algo mais de caráter ideológico do que político, sobretudo porque vejo o desejo de legalização como uma confissão de impotência ou indolência do poder público.
Acho, sim, que deveria haver harmonia e coesão entre as forças políticas no sentido de, através de educação e repressão, ser dado um efetivo e verdadeiro combate ao crime, seja ele crime organizado ou abagunçado. Não dá para combater o crime com estilingues e armas enferrujadas, com homens despreparados e pouco versados. Assim, eu defenderia o maior investimento, além de na educação, nas polícias, tanto as civis como militares e federais, como também - e por que não? E repito: por que não? - a participação das forças armadas. As forças armadas, sim. Por que não? - volto a repetir a pergunta.
As forças armadas estão fora da nossa realidade. Em tempo de paz, dão-se ao luxo de não prestar qualquer serviço à sociedade. Não é um desperdício e tanto de dinheiro público e armamento? Logo enquanto o crime organizado samba, dança, canta, faz firula e rebola diante da sociedade? Não venham os políticos de Brasília com a argumentação de que os militares são de elite e sei lá que mais, que não ficaria bem eles subindo favelas e trocando tiros com bandidos, nem que os mesmos estão despreparados para tanto e outras coisas do gênero, porque nada disso é crível. Se não estão preparados, pois que sejam. Sobretudo porque as forças armadas sempre foram de uma competência ímpar para combater movimentos estudantis, trabalhadores e cidadãos em manifestações, além de haverem-se especializado (e sem nenhuma demora ou rodeio) em dar combate às guerrilhas que lutaram contra o regime autoritário instaurado no Brasil a partir de 1964 e que só saiu de cena vinte anos depois. Encontraram e executaram Carlos Lamarca no fundo do sertão da Bahia, onde nem Deus o encontraria; aniquilaram os guerrilheiros do Araguaia num histórico e violentíssimo massacre, desbarataram a Vanguada Popular Revolucionária e ganharam inúmeras outras medalhas de bravura por atos semelhantes. Dito isto, responda-me: o que as forças armadas de ontem têm que as de hoje não podem ter?
Enfim, se o Brasil não está enfrentando ou em vias de enfrentar alguma guerra, ora, amigo! Papel de forças armadas é combater a criminalidade!
2010

domingo, 4 de abril de 2010

FABULAZINHA DE DEUS ABANDONADO

Era um dia como outro qualquer, até que subitamente ouviram-se trombetas que encheram o céu e a terra, e a voz do arcanjo Gabriel anunciou:
-- Filhos do Senhor, parai todos e ouvi atentamente o que o nosso Deus tem a vos falar!
O mundo inteiro parou e silenciou. A voz do Senhor, bonita, grave, sonora, cheia de eco de uma acústica celestial, principiou:
-- Filhos... tenho uma péssima notícia para vos dar.
O mundo, ainda quedado, agora se via aflito e lotado de curiosidade:
-- Tendes visto que tudo tem piorado? As catástrofes naturais têm sido mais frequentes. A ambição, mais do que nunca, tem gerado e alimentado  guerras. Os homens vêm agindo com o desamor e crueldade da era pré-cristã, como se tudo o que o Messias pregou não fosse para ser levado a sério. O crime a cada dia ganha mais corpo e força, pouco hoje se escondendo, tamanho o seu poder. Os maus políticos, já existentes na Antiguidade, permanecem invulneráveis, impunes, crescentes em número, existindo hoje numa maioria superior à da Antiga Roma.
"Não percebeis, filhos, o que está acontecendo?"
As pessoas permaneciam caladas, Deus prosseguiu :
--A Natureza vem sendo esmagada pelos homens, as espécies animais estão em processo de extinção mais acelerado. Tudo o que é ruim está crescendo em número e tamanho e tomando conta do mundo. O "Big Brother Brasil" vingou e é sempre campeão de audiência, os seus congêneres também arrebanham um tremendo público! Os programas de auditório têm a cada dia mais ibope. Todos os aparelhos de som tocam "funk" e pagode. Não percebeis o que ocorre? Não percebeis?
Os habitantes da Terra permaneciam silentes, todos ainda aparvalhados de perplexidade.
-- Pois eu vos digo, meus filhos. Preparai-vos para ouvir.
Seguiu o silêncio, Deus vociferou:
-- Perdi a guerra contra Satanás.
Um "oh!" geral, mundial e desolado. O Senhor continuou:
-- Mais do que isto, meus filhos... - uma grande pausa para rufarem os tambores, o Pai Eterno tornou: - Perdi o poder.
Nunca se viu um "oh" tão desesperado, desolado, desesperado, tão geral e tão sonoro. Desmaios, gritos, ataques histéricos, internações, uma tempestade moral no mundo.
-- Se quiserdes permanecer comigo - seguiu Deus - estarei sempre convosco. Mas ficai sabendo que agora nada mais posso, já que, infelizmente, só o Diabo tem poder.
Despediu-se (até porque Deus é objetivo, não fica falando à toa):
-- Até o momento em que algum de vós me quereis falar.  Sede felizes.
Alguns dias após o imensurável, mundial e descomunal choque, as pessoas começaram a comentar:
-- E agora?  O que será de nós?
-- Pois é...
-- Veja só! Deus sem poder, onde se viu?
-- Uma desgraça! Agora o poder está nas mãos do outro.
-- Outro?
-- É, o outro!
-- Outro?
-- É. Aquele cujo nome não se deve falar.
-- Ah, é...!!
-- O outro...
-- O outro...
-- Cujo nome não se pode falar...
--... não se pode falar...
-- Ora! Mas por que não??
-- É! Por que não?
-- Ora essa!
-- É! Ora essa!
-- Pensando bem, o outro sempre foi bem mais simpático... Deus sempre fechadão, lá na dele, muito sério, achando tudo imoral e errado...
-- É. O outro sempre foi alegre, galhofeiro, gozador..
-- Também sempre achei!
-- Nunca proibiu a gente de nada. A gente sempre pôde sambar, se despir, cornear, beber, matar, farrear, colocar o pé na frente do garçom...
-- Pois é! Muito mais liberal, muito mais sem frescura. Sempre deu à gente inteira liberdade.
-- Apoiado! Acho que agora a gente vai ser muito mais feliz com o outro. E eu falo o nome dele, sim! Satanás, pronto!
-- Também falo: Satanás!
-- Isso! Louvado seja Satnás!
-- Onde se viu? A gente vivia numa repressão danada, agora vai ter liberdade e felicidade.
-- Um Deus sem poder... De que adianta? Ora essa!
-- É... Um Deus  sem poder... Onde se viu?
E assim as pessoas, adesistas, interesseiras, ingratas, prostitutas que são, passaram a devotar-se e  a preces ao diabo.
Moral: quem não tem poder ou vantagem a oferecer, vive sem amigos e ignorado por  todos.


domingo, 21 de março de 2010

ASSUNTO POLÊMICO

"Excelentíssimos senhores parlamentares desta Casa Legislativa, hoje venho tratar de um assunto que as pessoas em geral evitam, não sei se por questões morais ou por negligência e comodismo, mas que nós, legisladores, não podemos, doa a quem doer, aconteça o que acontecer, nos furtar a debater nesta sessão de hoje. É um assunto controverso, obscuro, mas que tem de ser tratado com coragem e determinação por este plenário. Vamos tratá-lo sem ceder a pressões de quem quer que seja, porque esta entidade é independente e soberana para colocar em pauta o que bem entender."
"O assunto de que falo, nobres colegas de tantas lutas e batalhas, é o sexo dos anjos."
"Sim, o sexo dos anjos, sim, senhores - um braço erguido com um dedo apontado para o teto, a voz inflamada - O sexo dos anjos, sim, nobres colegas! Repito que este país não pode fugir a colocá-lo em discussão, para defini-lo de uma vez por todas, com o peito aberto e a fibra que nos é peculiar!"
Aplausos da platéia.
"Esta casa discute aborto, discute  maioridade penal, discute relação de trabalho, e agora, senhores, como se acharia no direito de evitar discutir o sexo dos nossos sublimes anjos, esses abnegados e celestiais emissários do Senhor?!"
Mais aplausos, parlamentares chorando, parlamentares abrindo os braços voltados para o céu, aleluia!
"Meus senhores, este será um momento histórico, toda a posteridade registrará a nossa bravura, intrepidez, esta ocasião nesta casa que tanto honramos e da qual fazemos o manancial de toda a justiça, toda a disciplina, toda a inteireza e todo o bom senso e moral deste maravilhoso país!"
Aplausos pra cacete! Apupos histéricos daquela plateia formada de parlamentares enfiados em ternos requintados e enforcados em gravatas de primeira linha.
"Vamos, meus nobres amigos! Vamos, meu nobre país, discutir o assunto que é da maior relevância para o futuro e o destino desta idolatrada, e grandiosa, e magnífica nação!"
E assim seguiu a sessão, tratando do assunto tão elevado e relevante. Você acha menos inúteis e estapafúrdias algumas coisas que são discutidas pelos parlamentares deste país?

2010

sábado, 20 de março de 2010

A VERDADEIRA FACE DO PODER


Nos tempos mais remotos da história da humanidade, hordas de aventureiros invadiam territórios e subjugavam outros povos, promovendo carnificinas e uma série de outras crueldades. Alguns invasores, porém, fixavam-se nos territórios dominados e impunham-lhes rudimentos de regras severos e geralmente injustos, porque tais normas ( se assim podiam ser chamadas ) não visavam a distribuir justiça, ética, promover desenvolvimento ou fazer valer a moralidade, mas unicamente a conservar para os invasores o poder e as benesses do poder.
Hoje, passados mais de quarenta séculos da inauguração de tal praxe, o poder, sobretudo nos países de terceiro mundo, tem os mesmos vícios, os mesmos cacoetes, sem outro intuito além da manutenção dos privilégios nas mãos dos que o compõem ou a ele estão ligados. Em outras palavras, o Estado, que é parte integrante do poder que nos governa -- uma vez que boa parcela dos poderosos em qualquer país não ocupa cargo público -- não tem nenhum interesse em promover o bem-estar social. E por esse mesmo motivo precisaria ser perpétua e rigorosamente vigiado e policiado pelos que vivem em sua jurisdição e sob os seus preceitos. O Estado, complô das elites e meio de exercício de mando das classes dominantes, precisa ser constantemente pressionado e fiscalizado para que a sociedade possa avançar, para que o cidadão possa obter dele o mais que devido respeito e a real condição daquilo de que é chamado (cidadão). Entretanto, realizar tal empresa é algo extremamente difícil, quase impossível.
Seria preciso, antes de tudo, embasamento por parte do povo quanto às questões sociais e políticas, além do conhecimento do verdadeiro perfil do poder, o que já é dificultado pelas poucas chances de acesso à educação e à cultura que os governos oferecem -- do mesmo modo como Esparta implementava o laconismo como meio de dar poucos e parcos conhecimentos ao seu povo mais de vinte séculos atrás -- e pelo papel que a mídia exerce nos dias de hoje, sendo aliada dos governantes no trabalho de desinformar e enganar, confundindo a opinião pública e fabricando "verdades" e "mentiras" que sempre se afinam perfeitamente aos interesses dos poderosos. Ora, a mídia, composta por gente que troca favores com o poder, que vive à sombra deste( do qual faz parte), que outra postura poderia ter nesse contexto? É ela tão provida de recursos e argumentos, que hoje quase ou nunca o poder precisa recorrer à força para defender os interesses das castas que tem a função de privilegiar e proteger.
Só as sociedades mais avançadas conseguem fazer que o Estado exerça o papel que lhe cabe, porque tiveram acesso ao conhecimento de causa que não é dado aos povos de terceiro mundo, além de terem histórias muito diversas das vivenciadas pelas sociedades menos afortunadas -- em sua maioria havendo arrancado do poder tudo aquilo que este não lhes queria propiciar, nem sempre por meios exatamente pacíficos, e ainda assim alguns séculos atrás, quando os veículos de comunicação eram precários e não tinham a força  de  quarto poder (como até já foi intitulado um filme americano), o que favoreceu, entre outras coisas, o crescimento das ideias iluministas e o crescimento da não-aceitação aos desmandos dos poderosos.
Em suma, o poder não é justo ou ético, o poder é apenas o poder, sequioso das benesses que recebe de si próprio (com os recursos dos governados) e cioso em não se deixar mover de sua confortável posição. Dele nada é recebido, mas conquistado com reivindicação e luta alicerçada no imprescindível conhecimento a que aqui faço alusão. Todavia, e infelizmente, não vislumbro, para os países de terceiro mundo, muitas chances de se alcançar este conhecimento de causa que leva à luta e à conquista.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A RESSACA E OS EVENTOS ESPORTIVOS

Hoje acordei de ressaca, com um martelo querendo sair por minha caixa craniana a fora. Tentei mandar alguma coisa nova como mensagem, mas nada saiu da minha idéia: acho que é o tal martelo que está atingindo a zona do cérebro responsável pela criatividade (deve tê-la tornado ressecada e árida). Não quis enviar um texto antigo, deixei o computador. Resolvi então, frustrado, me postar diante da televisão, e isto acabou por me dar um certo alento: os caras só falam em Copa de 2014, Olimpíadas de 2016... Olimpíadas de 2016 no Rio...Copa de 2014 no Brasil. Eu os entendo: eles também tão em crise de criatividade. Também beberam muito ontem à noite.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O HORÁRIO DE VERÃO

Senti um grande alívio hoje de manhã, em razão do final do horário de verão. Foi com um prazer sem tamanho que fui a todos os relógios da casa e os atualizei. Mas fiquei depois a analisar (como faço sempre quando estou sob aquele horário maluco) sobre a necessidade ou não de adiantar os relógios durante a estação. O objetivo dos governos tem sido realmente economizar energia? A energia economizada é significativa? É realmente necessário sacrificar o nosso relógio biológico por uma parca economia de energia? Ou o pano de fundo disso seria a disposição permanente dos nossos governantes em agradar aos tubarões da rede hoteleira, que faturam uma fábula por terem os seus estabelecimentos numa região onde o sol vai até as vinte e uma horas ( o que atrai um sem-número de turistas)? Sabe como é: o governo, como aliás todo governo, tem uma sensibilidade à flor da pele, um verdadeiro coração de mãe, de manteiga mesmo, quando se trata de atender aos anseios das classes abastadas, que mantêm, como todos sabem, um lobby poderosíssimo dentro do poder público. E, assim, nós ficamos esgotados enquanto os donos da indústria hoteleira ganham rios de dinheiro. Bonito isso, não?
Não me resta, então, nada senão arremedar o anarquista espanhol: Hay gobierno? Soy contra!